Alguns anos atrás, participei de um curso de meditação Vipassana no centro Dhamma Sarana, em Santana do Parnaíba, São Paulo. Neste artigo, compartilho minha experiência.
A técnica
Vipassana é uma das mais antigas técnicas de meditação da Índia, e seu nome significa “ver as coisas como elas realmente são”. Trata-se de um processo de autopurificação por meio da auto-observação, que ajuda a alcançar as metas espirituais mais elevadas: libertação total e pleno despertar.
Embora não seja uma prática voltada para curar enfermidades físicas, muitos distúrbios psicossomáticos desaparecem como consequência da purificação mental. Apesar de ter sido desenvolvida por Buda, a técnica é universal e não se limita a budistas.
O curso
Para participar, é necessário se inscrever online e aguardar a aprovação, pois as vagas são limitadas. O curso começa com orientações dos servidores e o preenchimento de um termo de responsabilidade. Os participantes entregam seus celulares e outros pertences antes de seguir para os quartos, onde passam os próximos 10 dias em nobre silêncio – ou seja, sem comunicação por gestos, palavras ou escrita, exceto com o professor, se necessário.
O dia começa às 4h, com o sino chamando todos para acordar, e vai até às 22h, quando as luzes são apagadas. A rotina diária inclui cerca de 10 horas de meditação, além de palestras, orientações do professor, refeições e momentos de repouso.
Além da técnica Vipassana, os participantes aprendem Anapana (consciência da respiração) e Metta (amor altruísta e boa vontade).
No meio da natureza
O centro Dhamma Sarana está rodeado pela natureza, o que torna comum a presença de animais e insetos. Um dos preceitos do curso é não tirar a vida de nenhum ser, então cada quarto tem um kit para resgatar insetos. Assim, você aprende a salvar uma aranha ou besouro que aparece, evitando que sejam pisoteados.
Homens e mulheres ficam em áreas separadas, reunindo-se apenas na sala de meditação em horários definidos. Na turma em que participei, havia cerca de 80 alunos no total.
Os quartos comportam duas ou três camas de solteiro, dependendo da instalação. Apesar do isolamento, a infraestrutura é completa, incluindo banheiros com água quente.
Alimentação e vestuário
As refeições são vegetarianas, exceto em casos de restrições médicas. Os pratos são pensados para facilitar a digestão e ajudar no processo de meditação. O lanche da tarde consiste apenas em frutas.
No meio do curso, percebi que não sentia tanta fome e passei a fazer apenas o almoço como refeição principal.
Os organizadores pedem que os participantes usem roupas simples, confortáveis e discretas. É ideal levar roupas suficientes para todos os dias do curso, mas há tanques e varais disponíveis para lavar peças pequenas, se necessário.
Experiência única
Para mim, o maior desafio foi físico: senti dores nas costas por passar tanto tempo na posição de meditação. Para outros, o desafio foi mental. Muitos desistem entre o quarto e o quinto dia, já que ficar sozinho com a própria mente sem smartphone ou conversas é mais difícil do que parece.
No último dia, é permitido conversar, para facilitar o retorno à vida cotidiana. É um momento de grande alegria, considerado uma vitória para quem superou as dificuldades do corpo e da mente.
Participar desse curso foi uma experiência única. Além de aprender a meditar em completo isolamento, vivi momentos memoráveis, como contemplar o belo entardecer em silêncio absoluto e ouvir o som das cigarras ao redor do centro.
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